domingo, 21 de agosto de 2011

joana 2.

Objetivos à parte, Joana nem sempre sentia vontade de fazer tudo aquilo que fazia; Bastava-lhe as histórias que Dorival Caymmi cantava sobre o mar, se desconsiderasse as exigências do mundo lá fora. Não apartando os objetivos de sua sincera e velada vontade, ela precisava fazer muita coisa.
Após algumas tentativas frustradas, estava continuando agora. Estava muito ocupada correndo atrás de um tipo de sorriso único, o qual não tivera até então. Sabia: quase sempre levava crédito de si mesma e dos outros.
Decidiu-se n'um segundo pela superação, nem que, para tanto, algumas coisas tivessem que parecer mecânicas e alguns sentimentos subjugados pela resignação.
No quarto seguinte de segundo suficiente para lembrá-la das incontáveis vezes que decidira o mesmo e, no entanto, continuou estagnada, avaliou que talvez o momento ou talvez os pequenos fracassos lhe causassem esse espírito de mar que invade e recua e invade e recua e invade e recua, e que lhe levava a cada recuo a determinação, deixando apenas uma preguiça, um cansaço, um sono e a vontade de fugir.

joana 1.

O sol deixava de se intimidar pelos pingos da chuva e isso infestou o coração de Joana, ainda que efemeramente, de fresca esperança de vida que tentava saltar para dentro de casa, onde estava lendo.
Fechou o livro. Abriu as janelas. Olhou aquele monte de ânimo e desânimo no espelho. Cantou. Atendeu à chamada, cuja conversa caminhava por fios enrolados. Comparou os impulsos que transmitiam a mensagem com os impulsos que a levavam a agir. Ninguém a reprimiu- estava só.
Como num ímpeto de viver, imaginou-se em um jardim a correr, e não estaria só. Por fim ela cairia, cabelos bagunçados de um jeito vintage que via nas revistas e achava puro; sorriria, uma mancha de sol cegaria seus olhos.
A tarde passara custosamente rápido. E o sol, ao contrário do que imaginara, não a fazia encolher os olhos; suas pupilas procuravam ainda mais luminosidade.
Tomou o livro novamente, gostava de se sentir capaz de entender metáforas e metaforizar. O frio do cair da noite parecia aquecer-lhe o coração- agradavam-lhe também as antíteses.

sábado, 20 de agosto de 2011

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu. [...]


Álvaro de Campos



terça-feira, 26 de julho de 2011

O encantamento leva à sensibilização do ser humano, à reflexão, à produção artística e à busca da essência dele mesmo constantemente. O encantamento cego também leva à sensibilização, mas leva também à obsessão e à possessividade. É aquele que depende da fragilidade e insegurança do indivíduo para se manifestar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Manipulação da vida animal pelo homem.

Da relação caça-predador até a domesticação de animais(na Revolução Neolítica): essa é a abrangência de aspectos da relação do homem com os animais. O uso desses para fins científicos é um dos pontos mais polêmicos dessa complexa relação.
Os grupos defensores dos direitos dos animais condenam ingenuamente o uso científico dos mesmos e alegam que a prática constitui um covarde ato de subordinação da natureza aos interesses humanos. A proibição da prática, no entanto, afirmam os cientistas, prejudicaria muitas pesquisas inovadoras as quais melhorariam a qualidade de vida do homem, a exemplo da criação de vacinas, de terapias contra o câncer e dos estudos com células-tronco.
A ponderada solução diante do impasse é dada pela aprovação no Senado brasileiro, recentemente, de um projeto de lei o qual regulamenta o uso científico de animais, tendo sido criado o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, que credencia instituições e estabelece normas de cuidado com os animais criados.
Somente a adoção de uma postura ética e responsável, portanto, no que tange ao uso científico de animais, garante o respeito aos direitos desses sem barrar o desenvolvimento da ciência e do conhecimento. Representa um avanço na relação dos seres humanos com as demais formas de vida.
Penso que o choro é mais uma condição humana do que medida de grau de maturidade.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

palavra                                            lê

paisagem                            contempla

cinema                                     assiste

cena                                              vê

cor                                        enxerga

corpo                                   observa

luz                                      vislumbra

vulto                                        avista

alvo                                           mira

céu                                        admira

célula                                   examina

detalhe                                       nota

imagem                                       fita

olho                                          olha


(Arnaldo Antunes)

O enigma

As pedras caminhavam pela estrada. Eis que uma forma obscura lhes barra o caminho. Elas se interrogam, e à sua experiência mais particular. Conheciam outras formas deambulantes, e o perigo de cada objeto em circulação na terra. Aquele, todavia, em nada se assemelha às imagens trituradas pela experiência, prisioneiras do hábito ou domadas pelo instinto imemorial das pedras. As pedras detêm-se. No esforço de compreender, chegam a imobilizar-se de todo. E na contenção desse instante, fixam-se as pedras - para sempre- no chão, compondo montanhas colossais, ou simples e estupefatos e pobres seixos desgarrados.
Mas a coisa sombria- desmesurada, por sua vez- aí está, a maneira dos enigmas não se decifrarem a si próprios. Carecem de argúcia alheia, que os liberte de sua confusão amaldiçoada. E repelem-na ao mesmo tempo, tal é a condição dos enigmas. Esse travou o avanço das pedras, rebanho desprevenido, e amanhã fixará por igual as árvores, enquanto não chega o dia dos ventos, e o dos pássaros, e o do ar pululante de insetos e vibrações, e o de toda vida, e o da mesma capacidade universal de se corresponder e se completar, que sobrevive à consciência. O enigma tende a paralisar o mundo.
Talvez que a enorme Coisa sofra na intimidade de suas fibras, mas não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação.
Ai! de que serve a inteligência- lastimam-se as pedras. Nós éramos inteligente; contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la.
Ai! de que serve a sensibilidade- choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom de misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas.
Anoitece, e o luar, modulado de dolentes canções que preexistem aos instrumentos de música, espalha no côncavo, já pleno de serras abruptas e de ignoradas jazidas, melancólica moleza.
Mas a Coisa interceptante não se resolve. Barra o caminho e medita, obscura.

( Carlos Drummond)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Essa mania de tentar encaixar as coisas em alguma convenção e esquecer que a maneira de os indivíduos se relacionarem é variável de grupo pra grupo é uma coisa que tenta me pentelhar.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Eu não quero mudar com as estações.

A gente não deveria esquecer da nossa essência, não deveria trocar princípios por objetivos e não deveria mudar pensando unicamente em agradar ou desagradar os outros ou ainda só porque a música muda, porque assim se pode perder a confiança dos amigos, a estima da família e o respeito por si próprio.