sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Sugestão para hoje, amanhã, 2012, 2013..

Se cada dia cai

Se cada dia cai
dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

(Pablo Neruda)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Esperemos

Há outros dias que não têm chegado ainda,
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas
- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato.

(Pablo Neruda)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Álvaro de Campos me entende.

Parece que passam sem ver-me os instantes
  Mas passam sem que seu passo seja leve "

sábado, 5 de novembro de 2011

O bicho era um homem

Cata roupa, Cata pano
Cata jornal, papel
Cata qualquer nota de piano.

Inha, caixa, caixão. Cata.
Lata, tijolo, é pedra
Dessa vida não desata

Cata brinquedo

Chance, agir, luz-divindade
Cor, lugar, é tudo ão
Piedade cata não. Cata identidade

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Há dias em que algumas horas passam aaaarrastaaaadaas..
Ainda bem que passam.

sábado, 24 de setembro de 2011

Língua Portuguesa.

Nascer no Cairo, Ser Fêmea de Cupim

Conhece o vocábulo escardinchar? Qual o feminino de cupim? Qual o antônimo de póstumo? Como se chama o natural do Cairo?
O leitor que responder "não sei" a todas estas perguntas não passará provavelmente em nenhuma prova de Português de nenhum concurso oficial. Aliás, se isso pode servir de algum consolo à sua ignorância, receberá um abraço de felicitações deste modesto cronista, seu semelhante e seu irmão.
Porque a verdade é que eu também não sei. Você dirá, meu caro professor de Português, que eu não deveria confessar isso; que é uma vergonha para mim, que vivo de escrever, não conhecer o meu instrumento de trabalho, que é a língua.
Concordo. Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido. De vez em quando um leitor culto se irrita comigo e me manda um recorte de crônica anotado, apontando erros de Português. Um deles chegou a me passar um telegrama, felicitando-me porque não encontrara, na minha crônica daquele dia, um só erro de Português; acrescentava que eu produzira uma "página de bom vernáculo, exemplar". Tive vontade de responder: "Mera coincidência" — mas não o fiz para não entristecer o homem.[...]
Alguém já me escreveu também — que eu sou um escoteiro ao contrário. "Cada dia você parece que tem de praticar a sua má ação — contra a língua". Mas acho que isso é exagero.
Como também é exagero saber o que quer dizer escardinchar. Já estou mais perto dos cinqüenta que dos quarenta; vivo de meu trabalho quase sempre honrado, gozo de boa saúde e estou até gordo demais, pensando em meter um regime no organismo — e nunca soube o que fosse escardinchar. Espero que nunca, na minha vida, tenha escardinchado ninguém; se o fiz, mereço desculpas, pois nunca tive essa intenção.[...]
Por que exigir essas coisas dos candidatos aos nossos cargos públicos? Por que fazer do estudo da língua portuguesa uma série de alçapões e adivinhas, como essas histórias que uma pessoa conta para "pegar" as outras? O habitante do Cairo pode ser cairense, cairei, caireta, cairota ou cairiri — e a única utilidade de saber qual a palavra certa será para decifrar um problema de palavras cruzadas.[...]
No fundo o que esse tipo de gramático deseja é tornar a língua portuguesa odiosa; não alguma coisa através da qual as pessoas se entendam, mas um instrumento de suplício e de opressão que ele, gramático, aplica sobre nós, os ignaros.
Mas a mim é que não me escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo do póstumo nenhum; e sou cachoeirense, de Cachoeiro, honradamente — de Cachoeiro de Itapemirim!

(Rubem Braga)

sábado, 17 de setembro de 2011

Jovens Marginalizados: como construir o próprio futuro?

      A juventude é um período típico de inquietações, descobertas, anseios e expectativas, especialmente no que tange à construção do futuro, o que constitui um singular desafio.
     Quando um indivíduo se encontra à margem da sociedade, a edificação de sua própria vida se torna ainda mais difícil devido ao preconceito do qual, muitas vezes, é alvo, justamente por causa de sua condição social. Soma-se a isso a carência de estímulo, seja por parte da família ou do mundo em que vive: opressor, competitivo e desigual- um universo pouco atraente. Como se isso não bastasse, são raras suas perspectivas e oportunidades de estudo, trabalho..
     Nesse contexto, inúmeros projetos de inclusão social do jovem marginalizado têm sido criados a fim de contribuir com o reconhecimento de seus direitos perante si e a sociedade, não permitindo que se torne o que Gilberto Dimmenstein chama em seu livro de mesmo nome de: "Cidadão de papel". Por exemplo, a implantação do sistema de cotas para o ingresso nas universidades oferece mais chances de transformar a vida desse cidadão. Se ao jovem, entretanto, não forem apresentadas possibilidades como essa, existe um grande risco de que ele caia na rede da criminalidade e da violência, o que, aliado à possível descrença na sua existência como ser social, poderá comprometer a dignidade de seu futuro.
    Faz-se necessário, portanto, o desenvolvimento de propostas efetivas de inserção que despertem no indivíduo o traçado de metas e a realização dessas, sobretudo por meio da educação. Assim será possível tornar esse jovem, de fato, agente de mudança da própria realidade e dono de seu futuro.




domingo, 11 de setembro de 2011

joana 3.

Acordou perturbada. Não era sempre que atinava para o modo mais maduro-sensato-inteligente de lidar com as angústias. Às vezes se mostrava disposta a encarar tudo de maneira tranquila. Tinha suas dúvidas se por dentro seria mesmo suave assim. De repente um trim trim insuportavelmente agudo interrompia-lhe a reflexão.
Não o estoicismo completo - afinal, há anos já era humana-, mas sim a razoabilidade em administrar sensações era o que buscava. Manteve tal desejo em mente, passadas várias ''sucessões de flor e sangue '', na expressão de Neruda.
Às vezes um sonho lhe despertava a vontade de voltar ao sonho quando do despertador tocando.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

 "O que teria acontecido com um soldado americano que, em meio a uma operação de guerra, tentou salvar crianças? Como uma cena de guerra transformou em pacifista um militar americano que, ao chegar ao Iraque, imaginaria um país povoado por terroristas? 'Os Estados Unidos, principalmente nas Forças Armadas, retrataram o país todo como um vilão. Fizeram com que a gente visse todos os iraquianos como inimigos. Eu achava que o Iraque era um país cheio de terroristas', contou o ex-soldado. Hoje Ethan McCord participa de uma organização chamada “Veteranos contra a guerra do Iraque”. Virou militante da paz. 'Eu mudei. Emocionalmente, eu já não justificava minha presença no Iraque nem o que eu estava fazendo. Tudo o que fazíamos parecia ilegal e imoral. Eu já não conseguia fazer parte do sistema que estava fazendo aquelas coisas', afirmou."
Veja no vídeo a entrevista completa do ex-soldado norte-americano Ethan McCord ao repórter Geneton Moraes Neto.
("Guerra: é bom pra quê? absolutamente nada!")


                              

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Esse ficou com a cara da definição do blog.

Primeiro pensei em vir aqui e dizer de como me sinto. Depois pensei: antes que o indefinido parágrafo resulte em um sensacionismo exagerado e confuso tanto para mim quanto para quem lê, constitui melhor escolha cumprir a agenda normal do dia.


O porquê, então, de ter escrito esse parágrafo, é um itdoesn't-matter em aberto.

domingo, 21 de agosto de 2011

joana 2.

Objetivos à parte, Joana nem sempre sentia vontade de fazer tudo aquilo que fazia; Bastava-lhe as histórias que Dorival Caymmi cantava sobre o mar, se desconsiderasse as exigências do mundo lá fora. Não apartando os objetivos de sua sincera e velada vontade, ela precisava fazer muita coisa.
Após algumas tentativas frustradas, estava continuando agora. Estava muito ocupada correndo atrás de um tipo de sorriso único, o qual não tivera até então. Sabia: quase sempre levava crédito de si mesma e dos outros.
Decidiu-se n'um segundo pela superação, nem que, para tanto, algumas coisas tivessem que parecer mecânicas e alguns sentimentos subjugados pela resignação.
No quarto seguinte de segundo suficiente para lembrá-la das incontáveis vezes que decidira o mesmo e, no entanto, continuou estagnada, avaliou que talvez o momento ou talvez os pequenos fracassos lhe causassem esse espírito de mar que invade e recua e invade e recua e invade e recua, e que lhe levava a cada recuo a determinação, deixando apenas uma preguiça, um cansaço, um sono e a vontade de fugir.

joana 1.

O sol deixava de se intimidar pelos pingos da chuva e isso infestou o coração de Joana, ainda que efemeramente, de fresca esperança de vida que tentava saltar para dentro de casa, onde estava lendo.
Fechou o livro. Abriu as janelas. Olhou aquele monte de ânimo e desânimo no espelho. Cantou. Atendeu à chamada, cuja conversa caminhava por fios enrolados. Comparou os impulsos que transmitiam a mensagem com os impulsos que a levavam a agir. Ninguém a reprimiu- estava só.
Como num ímpeto de viver, imaginou-se em um jardim a correr, e não estaria só. Por fim ela cairia, cabelos bagunçados de um jeito vintage que via nas revistas e achava puro; sorriria, uma mancha de sol cegaria seus olhos.
A tarde passara custosamente rápido. E o sol, ao contrário do que imaginara, não a fazia encolher os olhos; suas pupilas procuravam ainda mais luminosidade.
Tomou o livro novamente, gostava de se sentir capaz de entender metáforas e metaforizar. O frio do cair da noite parecia aquecer-lhe o coração- agradavam-lhe também as antíteses.

sábado, 20 de agosto de 2011

Sou Eu

Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.

E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu. [...]


Álvaro de Campos



terça-feira, 26 de julho de 2011

O encantamento leva à sensibilização do ser humano, à reflexão, à produção artística e à busca da essência dele mesmo constantemente. O encantamento cego também leva à sensibilização, mas leva também à obsessão e à possessividade. É aquele que depende da fragilidade e insegurança do indivíduo para se manifestar.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Manipulação da vida animal pelo homem.

Da relação caça-predador até a domesticação de animais(na Revolução Neolítica): essa é a abrangência de aspectos da relação do homem com os animais. O uso desses para fins científicos é um dos pontos mais polêmicos dessa complexa relação.
Os grupos defensores dos direitos dos animais condenam ingenuamente o uso científico dos mesmos e alegam que a prática constitui um covarde ato de subordinação da natureza aos interesses humanos. A proibição da prática, no entanto, afirmam os cientistas, prejudicaria muitas pesquisas inovadoras as quais melhorariam a qualidade de vida do homem, a exemplo da criação de vacinas, de terapias contra o câncer e dos estudos com células-tronco.
A ponderada solução diante do impasse é dada pela aprovação no Senado brasileiro, recentemente, de um projeto de lei o qual regulamenta o uso científico de animais, tendo sido criado o Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, que credencia instituições e estabelece normas de cuidado com os animais criados.
Somente a adoção de uma postura ética e responsável, portanto, no que tange ao uso científico de animais, garante o respeito aos direitos desses sem barrar o desenvolvimento da ciência e do conhecimento. Representa um avanço na relação dos seres humanos com as demais formas de vida.
Penso que o choro é mais uma condição humana do que medida de grau de maturidade.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

palavra                                            lê

paisagem                            contempla

cinema                                     assiste

cena                                              vê

cor                                        enxerga

corpo                                   observa

luz                                      vislumbra

vulto                                        avista

alvo                                           mira

céu                                        admira

célula                                   examina

detalhe                                       nota

imagem                                       fita

olho                                          olha


(Arnaldo Antunes)

O enigma

As pedras caminhavam pela estrada. Eis que uma forma obscura lhes barra o caminho. Elas se interrogam, e à sua experiência mais particular. Conheciam outras formas deambulantes, e o perigo de cada objeto em circulação na terra. Aquele, todavia, em nada se assemelha às imagens trituradas pela experiência, prisioneiras do hábito ou domadas pelo instinto imemorial das pedras. As pedras detêm-se. No esforço de compreender, chegam a imobilizar-se de todo. E na contenção desse instante, fixam-se as pedras - para sempre- no chão, compondo montanhas colossais, ou simples e estupefatos e pobres seixos desgarrados.
Mas a coisa sombria- desmesurada, por sua vez- aí está, a maneira dos enigmas não se decifrarem a si próprios. Carecem de argúcia alheia, que os liberte de sua confusão amaldiçoada. E repelem-na ao mesmo tempo, tal é a condição dos enigmas. Esse travou o avanço das pedras, rebanho desprevenido, e amanhã fixará por igual as árvores, enquanto não chega o dia dos ventos, e o dos pássaros, e o do ar pululante de insetos e vibrações, e o de toda vida, e o da mesma capacidade universal de se corresponder e se completar, que sobrevive à consciência. O enigma tende a paralisar o mundo.
Talvez que a enorme Coisa sofra na intimidade de suas fibras, mas não se compadece nem de si nem daqueles que reduz à congelada expectação.
Ai! de que serve a inteligência- lastimam-se as pedras. Nós éramos inteligente; contudo, pensar a ameaça não é removê-la; é criá-la.
Ai! de que serve a sensibilidade- choram as pedras. Nós éramos sensíveis, e o dom de misericórdia se volta contra nós, quando contávamos aplicá-lo a espécies menos favorecidas.
Anoitece, e o luar, modulado de dolentes canções que preexistem aos instrumentos de música, espalha no côncavo, já pleno de serras abruptas e de ignoradas jazidas, melancólica moleza.
Mas a Coisa interceptante não se resolve. Barra o caminho e medita, obscura.

( Carlos Drummond)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Essa mania de tentar encaixar as coisas em alguma convenção e esquecer que a maneira de os indivíduos se relacionarem é variável de grupo pra grupo é uma coisa que tenta me pentelhar.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"Vou olhar os caminhos"

Uma vontade grande demais de existir. Um tipo de cócegas em algum lugar aqui dentro.
:)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Eu não quero mudar com as estações.

A gente não deveria esquecer da nossa essência, não deveria trocar princípios por objetivos e não deveria mudar pensando unicamente em agradar ou desagradar os outros ou ainda só porque a música muda, porque assim se pode perder a confiança dos amigos, a estima da família e o respeito por si próprio.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"buscar mais uma vez a luz que canta dentro de mim, a luz inapelável"

Eu torço por um despertar para si e para os outros, para uma ampliação de uma noção mais humana do que é o mundo, em sua iniquidade e amor, escondido pela preguiça mental e procura pelas coisas erradas.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

uh shalalala


Dos meus últimos dias

"a thought she has caught by a thread"- "nobody knows"- "morning elegance"( ou não)- de deixar as coisas menos corriqueiras- de sentir-da calma- do que é pouco evoluído- do que é certo- do que é novo.

sábado, 22 de janeiro de 2011

"love is real"

Talvez cada pessoa perceba e sinta o amor de maneira singular. Ou ainda, o amor acontece de formas diferentes para cada um.

Da "hierarquia que só é possível na base da ignorância"

"Na prática, as necessidades da população são sempre subestimadas,[...] e isso é considerado vantagem. É uma política consciente manter perto do sofrimento[...] porquanto o estado geral da escassez aumenta a importância dos pequenos privilégios e assim amplia a distinção entre um grupo e outro."

(George Orwell, em "1984")

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"Há certo gosto em pensar sozinho.

Às vezes eu me permito mais sentir que pensar, apesar do meu desejo de ser pouco passional.

              
[sentir]  É ato individual, como nascer e morrer".
(Carlos Drummond)

sábado, 15 de janeiro de 2011

Primavera nos dentes

"Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera"

Secos&Molhados
:)